
Vendido.

Choveram folhas. Amarelas, enormes, pesadas. O sol, as nuvens e o vento foram e vieram e foram e vieram mas as folhas choveram o dia todo. Esteve-se bem como de costume.

Eu à procura já há tanto tempo de um sítio para meninos e meninas se acastanharem de barro até aos cotovelos e tantos espaços desabitados e desusados pelas ruas da cidade. Há dias cruzámo-nos com esta primária, grande e abraçada por árvores quase a tocarem nas nuvens, ainda com brinquedos a empalidecerem os vermelhos e os azuis no pátio e com diferenças que eu apelidaria de fora-de-moda se o meu miúdo não importasse da escolinha dele certezas como O cor-de-rosa é só para meninas e Os meninos não podem brincar com bonecas. Fechando os olhos e ouvindo com atenção ainda há risos e cantigas a ecoar pelas paredes...
Veio sublinhado e rascunhado do alfarrabista, o que não me incomoda e até me agrada. São quase quatrocentas páginas com poucos desenhos, algumas tabelas e muitas letras. Tem menus, receitas e cábulas, o que o torna menos agradável para folhear mas óptimo para consultar e desfazer dúvidas. E é despretensioso, o que ajuda muito quando se quer aprender. "Este manual é um livro que ensina a fazer. É um livro de receitas, um livro de dicas, um livro técnico. Perante a sua consulta, a ideia mítica da cerâmica e dos seus lendários mistérios desvanece-se de uma forma que seria chocante se não ficássemos contaminados pela tentação de arregaçar as mangas e experimentar também." diz lá atrás na contra-capa. É o Manual Prático de Introdução à Cerâmica do Arlindo Fagundes. 

Plural, devia estar no plural, a pergunta, que na verdade são dois. Mochos, são mochos, os donos dos olhos grandes. Mochos segura-livros. O mais novo esteve quase-quase a desencostar-se das prosas para ir ali para cima dar as boas-vindas mas uma parede vizinha infelizmente prestes a ser modernizada acenou-me com um vermelho demasiado bonito para não ficar memoriado. O mais velho, lá na outra ponta da prateleira, ampara as culinárias, as cerâmicas e as pediatrias demasiado volumosas para o mais pequeno. Não fossem as diferenças nos centímetros e eram quase gémeos.
Assim, e porque esta e esta já bateram as asas para outras capoeiras, nasceu-lhe uma mulher para com ele combinar na perfeição...

Apaixonei-me por ele assim que se desembrulhou das bolhas protectoras e chamei-lhe galinha. O Mário, que comigo divide os dias e os trabalhos, negou-lhe o feminino e assegurou-o galo. Que se está mesmo a ver, no alturar do corpo e do rabo, no desarrumado da crista e no alongado das barbichas. Convenci-me a custo, que o jeitinho simpático que lhe encontro não o iguala em nada aos cantares de galo belicosos, emproados e solitários dos reais. Um galo com asas-corações não combina com solidões. Um galo com asas-corações precisa de família e de amigos... 
Eu gosto de feirar os domingos no jardim. Gosto do sol, gosto do cheiro das árvores, gosto das folhinhas que vão aterrando no pano roxo, gosto das cores dos vizinhos, gosto das conversas com quem passa Isto é barro?, São mealheiros? E como é que depois se tiram as moedas?, gosto das perguntas dos miúdos Porque é que não fazes um leão marinho?, Onde é que está a girafa?, gosto de imaginar como ficarão as coisas nas casas de quem as leva, gosto de quem diz que gosta delas. Eu gosto muito de feirar os domingos no jardim.
Este domingo a crafts & design no jardim da estrela tem uma intenção especialmente simpática: um jardim de flores feitas pelos participantes e por quem quiser que valem cada uma três árvores florestadas onde fizer falta. Eu, que googlo muitas vezes embondeiros e choupos e araucárias e sequóias, planto um pé de flor-estrela para combinar com o jardim.

Quando eu era menina gastava horas inúteis a tentar decidir que pedidos preferir se um daqueles génios mágicos das estórias se me engrandecesse à frente. Livros, eu lia muitos livros. Agora, crescida e a contar estas mesmas magias ao meu menino, já não me sobram grandes dúvidas sobre as solicitações. Uma delas seria concerteza uma casa aqui na cidade grande com umas abundantes centenas de metros quadrados de terra para plantar verdes. Alfaces e tomates e cenouras, uma laranjeira. Um salgueiro chorão. E flores. Muitas flores.